Falar em língua estrangeira

"Mas naquele momento eu estava no estrangeiro, e era obrigado a falar em língua estrangeira, o que sempre é incômodo e ligeiramente humilhante, pois como dizia aquele português, o Teixeira, não há nada mais hipócrita e constrangedor para um homem de bem do que chamar queijo de fromage ou cheese quando está vendo com toda clareza que no fundo aquilo é queijo mesmo."

(Rubem Braga, Fim da Aventura em Casablanca)

Extraordinário dom

Era extraordinário o seu dom de ver todas as coisas exatamente como não são.

Quando nada mais resta

"Um pensamento me sacode. É a primeira vez na vida que experimento a verdade daquilo que tantos pensadores ressaltaram como a quintessência da sabedoria, por tantos poetas cantada: a verdade de que o amor é, de certa forma, o bem último e supremo que pode ser alcançado pela existência humana. Compreendo agora o sentido das coisas últimas e extremas que podem ser expressas em pensamento, poesia — e em fé humana: a redenção pelo amor e no amor! Passo a compreender que a pessoa, mesmo que nada mais lhe reste neste mundo, pode tornar-se bem-aventurada —ainda que somente por alguns momentos — entregando-se interiormente à imagem da pessoa amada. Na pior situação exterior que se possa imaginar, numa situação em que a pessoa não pode realizar-se através de alguma conquista, numa situação em que sua conquista pode consistir unicamente num sofrimento reto, num sofrimento de cabeça erguida, nesta situação a pessoa pode realizar-se na contemplação amorosa da imagem espiritual que ela porta dentro de si da pessoa amada. Pela primeira vez na vida entendo o que quer dizer: os anjos são bem-aventurados na perpétua contemplação, em amor, de uma glória infinita..."

(Viktor E. Frankl, Em busca de sentido)
 Têm a ciência, mas somente a ciência sujeita aos sentidos. Quanto ao mundo espiritual, a metade superior do ser humano, eles o rejeitam, o banem alegremente, mesmo com ódio. O mundo proclamou a liberdade, sobretudo nestes últimos anos, e o que ela representa? Nada além da escravidão e o suicídio. Porque o mundo diz: "Você tem necessidades, satisfaça-as, porque tem os mesmos direitos que os grandes e os ricos. Não tema satisfazê-las, aumente-as mesmo." É o que se ensina atualmente. Esta é a concepção deles de liberdade. E o que resulta desse direito de aumentar as necessidades? Entre os ricos, a solidão e o suicídio espiritual; entre os pobres, a inveja e o crime, porque conferiram-se direitos, mas ainda não se indicaram os meios de satisfazer as necessidades. (...); quanto aos pobres, a insatisfação das necessidades e a inveja são no momento afogadas na embriaguez. Mas em breve, em lugar de vinho, irão embriagar-se de sangue, é o fim para o qual os conduzem.

(Fiódor Dostoiévski, Os irmãos Karamázov, Livro VI, iii)

Saudade hipócrita

"Lembramo-nos, entretanto, com saudade hipócrita, dos felizes tempos; como se a mesma incerteza de hoje, sob outro aspecto, não nos houvesse perseguido outrora e não viesse de longe a enfiada das decepções que nos ultrajam."

(Raul Pompeia, O Ateneu, i) 

Janela para as almas

Um programa de rádio chamado "Janela para as almas". De fato, defenestravam muitas, via melifluidades.

Brasil über alles


Não é mérito nenhum
Eu nascer brasileirinho.
Sendo ufano e coitadinho,
Todo dia é “sete-a-um”.

Palavrão

Eu me lembro da geração anterior. Havia uma cerimônia entre o brasileiro e o palavrão, havia como que uma solenidade recíproca. O palavrão tinha a sua hora certa e dramática. Vejo hoje meninas, senhoras, de boca suja, e nas melhores famílias. Diria, se me permitem, que o palavrão se instalou entre os usos mais amenos e familiares da cidade.

(Nelson Rodrigues, Hamlet nos bate a carteira.)

Asinus asinum fricat

Entre as agradáveis virações,
Ah, e os doces sons dos passarinhos,
E as declarações dos amiguinhos,
E o sem-fim de todos os serões,

Repentinamente suspeitou
Que eram urubus os passarinhos;
Que eram sanguessugas os amiguinhos;
Que não eram brisa: alguém peidou!

Burro blasé

Esse, que ao longo de uma vida
Tão-somente a ostentar um quê
De inteligência mui fingida,
Era só um burro blasé.

Francisco, o sabiá

Francisco compôs
Canções de protesto:
“Os sujos, detesto —
J’accuse…”, ele impôs.
Canções populares,
Que tempos depois,
Serviram (sim pois!)
A ele e seus pares.

O sábio suíno

Sim, era merda o que comia o pobre,
O pobre do porquinho — que fazer!?
Mas a causa (suína) era nobre,
Diziam: era fome de saber.

Urubu-correio

Tem dia que é difícil:
Hoje mesmo me veio,
Cumprir um seu ofício,
Um urubu-correio.

Um único livro

Certa vez, um erudito resolveu fazer ironia comigo. Perguntou-me: "O que é que você leu?". Respondi: "Dostoievski". Ele queria me atirar na cara os seus quarenta mil volumes. Insistiu: "Que mais?". E eu: Dostoievski". Teimou: "Só?". Repeti: "Dostoievski". O sujeito, aturdido pelos seus quarenta mil volumes, não entendeu nada. Mas eis o que eu queria dizer: pode-se viver para um único livro de Dostoievski. Ou uma única peça de Shakespeare. Ou um único poema não sei de quem. O mesmo livro é um na véspera e outro no dia seguinte. Pode haver um tédio na primeira leitura. Nada, porém, mais denso, mais fascinante, mais novo, mais abismal do que a releitura.

(Nelson Rodrigues, O óbvio ululante).

A Escritura e os demasiado estúpidos

Se você e eu somos tão estúpidos ao ponto de não podermos entender a Bíblia, mas tão-somente padres, bispos e papas precisam interpretá-la para nós, não somos também demasiado estúpidos para entender o que os padres dizem também? Se não podemos entender a Primeira Epístola de Pedro (e dizem os romanistas ter sido Pedro o primeiro papa), como poderíamos entender  as contemporâneas epístolas papais? De  fato, a leitura de uma encíclica papal nos convence de que é muito mais fácil entender Pedro e Paulo.

(Gordon H. Clark, What Do Presbyterians Believe)

Tão simples, tão profundo

Não é necessário ser um grande teólogo para entender as lições por si mesmo. O homem peca, mas Deus é gracioso. O homem se rebela, mas Deus refreia. O homem falha, mas Deus é para sempre fiel. O homem se vale de tranqueiras e esquemas e rivalidades para destruir e triunfar sobre seus semelhantes; Deus concede tais dons ao seu povo de modo que, mesmo na própria fraqueza deste, o próprio Deus prevaleça. Pois a batalha é do Senhor, e não será vencida nem por habilidade nem por astúcia humanas. Na verdade, por esses expedientes mesmos frustra-se o homem. Em graça, submissão, humildade, paciência, Deus preserva seu povo e traz destruição aos seus inimigos. Nada aqui é complicado. Tudo é simples. Ainda assim, tão profundo.

(Joel McDurmon, In the Midst of Your Enemies: Exposition and Application of 1 Samuel).

Sancionadas abominações dos dias correntes

Todos são contra pecados de há dois mil anos atrás. Entretanto, é necessário um profeta para opor-se às sancionadas abominações dos dias correntes.

(Douglas Wilson, A Serrated Edge: A Brief Defense of Biblical Satire and Trinitarian Skylarking).